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"O Retorno" - Improviso em Fatos Reais

  • Foto do escritor: Pinoia
    Pinoia
  • 10 de ago. de 2021
  • 6 min de leitura

Atualizado: 22 de mai. de 2022

O primeiro texto que trazemos deste projeto é "O Retorno". Escrito e dirigido pela atriz colaboradora do Grupo de Teatro Remanescentes, Karina Schramm, você confere os textos que originaram a escrita e o resultado dramatúrgico final nas próximas linhas!


História de Pandemia 1

“Minha casa foi inundada duas vezes em duas semanas. A primeira vez foi naquela chuva tempestade que deu. A segunda vez foi o telhado mal colocado. Nessa, perdemos o colchão. Ah, e teve a terceira vez, na terceira semana. O gato do vizinho caiu dentro do nosso apartamento e estava se fingindo de morto dentro do box. A filharada do vizinho já estava chorando a morte do gato. Quando fomos pegar o corpo para colocar numa caixa, o bicho ressuscitou. Foi só festa! Para eles, porque para nós a casa estava uma tragédia.”


História de Pandemia 2

“Boa noite, A. Tudo bom? Feliz ano novo, primeiramente. Essa história de contar causos do Covid vai ser bem interessante. Muitos vão ser repetidos né, como entrar no mercado sem a máscara e aí ser chamado a atenção. Isso aí acho que vai ter de monte. Comigo aconteceu uma vez, foi muito engraçado. Eu estava apurado fazendo o serviço aqui em casa, aí eu troquei de roupa bem ligeiro e fui para o mercado, seis horas da tarde né. Quando eu entrei, eu olhei... uma senhora já olhou feio assim, uma cara feia para mim, eu pensei: hum, que velha antipática, nojenta, e entrei. Todo o mercado olhando para mim! Na hora eu pensei comigo assim: no mínimo eu não troquei alguma parte da roupa que estava suja, devo estar com a roupa suja ou o cabelo deve estar com alguma sujeira, enfim. Aí quando eu estava lá na metade do mercado, o menino veio: ‘Senhor... moço? O senhor tem máscara?’. Aí dá, sabe aquele gelo na espinha, assim, você coloca a mão na cara e diz meu, caraca! Daí corri até o carro para colocar a máscara. O pior ainda é que você sai e todo mundo sabe que chamaram sua atenção, você está saindo e daí todo mundo olha e quando você volta para o mercado, que a vontade é de não voltar mais, mas para isso eu precisava porque eu precisava comprar aquilo, daí na hora de voltar as pessoas continuam olhando para você como quem diz esquecesse a máscara, seu burro. Então, esse é um dos causos…”


* As identidades das pessoas envolvidas foram preservadas.


Roteiro criado para o videoarte

(Sonoplastia e vinheta de jornal. Em uma bancada, a âncora dá início ao jornal com as principais informações do dia. A âncora veste blusa branca e terninho preto, o cabelo é preso em um coque no alto da cabeça, ela usa óculos e fala de modo muito formal, digno de um jornal sério.)

ÂNCORA: Boa tarde! Sejam todos bem-vindos a mais um Impro Jornal. O jornal das notícias remanescentes, aquelas que não circulam pela grande mídia, mas que são de extrema importância e qualidade informativa. O nosso jornal não é como os outros jornais, aqui as notícias parecem ficção, mas são todas reais. Estamos à margem da notícia e à frente do nosso tempo. Aqui você encontra as notícias mais inusitadas, apuradas no âmago dos acontecimentos, investigadas com profundidade e perspicácia, para apresentar a você, querido telespectador, o mais alto índice de entendimento sobre a sociedade. Fique com a gente... (Vinheta) Como vocês sabem, as chuvas não param de cair sobre o Vale do Itajaí. Em meio a tamanha tragédia, um acontecimento chamou nossa atenção. Estamos com a nossa correspondente Jéssica Carla para contar exatamente os detalhes do que está acontecendo no centro da cidade. É com você, Jéssica.

JÉSSICA CARLA: (É uma repórter sensacionalista, fala alto e possui gestos grandes. Aparece de camiseta e calça jeans, segura um guarda-chuva e usa boias.) Deu? Tranquilo, Mateus? Então vamos lá, dá um close em mim! É isso mesmo, telespectador, é isso mesmo. A situação das chuvas está complicada por aqui, mas você não se preocupe, porque a nossa equipe é preparada com todos os apetrechos para trazer para você segurança e informação, tudo ao mesmo tempo. E, aproveitando que agora a chuva deu uma estiada, impressionante mesmo é o que está acontecendo na casa da Dona Dalila. Vem comigo… A gente percebe que as pessoas… (Fila de pessoas esperando para entrar na casa.) Mateus, dá um giro. A gente percebe que as pessoas já estão chegando, claro, sem aglomero, chegando para esse evento sensacional, de uma extrema sensibilidade que é a cerimônia do enterro do gato do 304. Muito bem, estamos aqui com a Dona Dalila, a dona-proprietária da casa que vai nos dizer exatamente como tudo aconteceu. Dona Dalila, conta para a gente como aconteceu essa situação toda, os detalhes...

DONA DALILA: (É uma mulher simples com sotaque Gasparense acentuado. Usa blusa listrada e calça. É entrevistada através da janela.) Então, guria, acontece assim, a gente né, eu e meu marido, a gente mora… Está bom assim? Eu não estou acostumada, guria. Então, eu e meu marido, como eu estava dizendo, a gente mora nessa casa aqui. E daí, acontece assim, com essa coisa de chove, chove, muita chuva, muita chuva, na primeira semana, que foi na semana passada, no caso, destelhou o telhado da minha sala. Guria, tu não tens noção, molhou tudo, inundou tudo, tudo alagado, uma nojeira que só. Daí nós numa correria louca dentro de casa, porque assim, fomos lá subir todos os móveis, porque já perdemos o telhado, não podíamos perder os móveis. Arrastamos tudo, botamos nas costas, era geladeira, era sofá, era mesa, era de tudo que nós botamos nas costas, levamos tudo para o quarto. Daí teve um dia que a chuva deu uma espiadinha, aí a gente pensou assim: não, vamos subir lá arrumar o telhado. Aí, a gente botou lá no telhado e tal. Quando… tu não vais acreditar! Quando nós arrumamos o telhado da sala, destelhou o do banheiro.

(Dona Dalila continua): Não, guria, por favor. Daí, o gato do vizinho deu de fugir, sabe Deus porquê, deu conta de fugir e pelo que parece estava andando pelos telhados e caiu dentro do buraco. Mas nós nem percebemos. E nisso, as crianças da vizinha numa gritaria, numa choradeira atrás do gato e missi, missi, missi, missi o dia todo atrás do gato, ninguém achou o gato. Aí só no dia seguinte, que nós fomos no banheiro e encontramos o bicho, guria, tu não tens noção, todo estropiado, estava tudo molhado, inundado, coitado! O bicho não se mexia, nós não sabíamos se tinha morrido da queda, de afogamento, de covid, não sabia. E nisso as crianças da vizinha abriram uma goela desgraçada né, choradeira e choradeira por causa do gato. E o que nós decidimos fazer? Essa cerimônia para fazer o funeral do gato, porque a gente se apega, né guria, e no fim das contas é um ser humano que nem nós.

JÉSSICA CARLA: E, Dona Dalila, como está a questão das medidas de segurança contra a Covid?

DONA DALILA: Não, guria, isso aí está tudo certo! Tudo certo! Teve gente, não, guria, deixa eu falar. Teve gente tipo a Jandira, quis entrar aqui sem máscara. Daí eu olhei para ela e disse assim: ‘Jandira, estás doida? Onde está a tua máscara?’. Daí ela pegou, botou a mão assim no rosto, nem ela tinha percebido. Ficou desesperada. Daí eu disse: ‘Não, Jandira, por favor, vai voltar para tua casa pegar a máscara. Ela disse: ‘Está bom’. Mas acredita que ela queria, ainda, que eu guardasse lugar na fila? Ah, eu disse: ‘Para, vai embora guria, vamos’. Pois ela saiu tão brava, tão brava que voltou desse jeito ali, desaforada. (Mostra a Jandira cheia de máscaras no rosto.) Voltou desse jeito só para me atazanar. Credo, Deus o livre. Não, guria, como se fosse muito longe, a casa dela é ali do lado. Daí queria guardar lugar na fila, voltou e está no mesmo lugar.

(Cena improvisada)

JANDIRA: Pode entrar? Minha vez? Estou preparada!

DONA DALILA: Vai, Jandira, entra! Calma! (Passa álcool)

JANDIRA: Dalila, que coisa triste, Dalila!

DONA DALILA: Vira! Deu, está bom, entra!

JANDIRA: Cadê, cadê, Dalila?

DONA DALILA: Não, é toda vida esse escândalo.

JANDIRA: Onde é, Dalila?

DONA DALILA: É no banheiro, tu já sabes!

JANDIRA: Ai, Dalila, eu não consigo, Dalila.

DONA DALILA: Vai, guria!

JÉSSICA CARLA: Dona Dalila, a gente pode entrar, então?

DONA DALILA: Claro que pode, guria! Vamos, vem, vem!

(Jéssica Carla e Dona Dalila higienizam as mãos, as boias e as sombrinhas, colocam todos os apetrechos de segurança, higienizam as flores e entram na casa a caminho do banheiro onde acontece o velório do gato. A câmera acompanha o caminho.)

JÉSSICA CARLA: Muito bem, telespectador. Vamos entrar na casa da Dona Dalila, para chegar até no banheiro dela, dar o nosso adeus a essa pessoa, essa criatura... Muito precavida, Dona Dalila.

DONA DALILA: Calma, calma, pode botar!

JÉSSICA CARLA: Muito obrigada, Dona Dalila. Então vamos lá, vamos lá telespectador. Vem comigo até o banheiro. Telespectador, você que está aí na sua casa, vamos saber da notícia, da informação. Estamos chegando no local… Ai, Dona Dalila, me desculpe! Agora silêncio, telespectador. Vamos fazer um minuto de silêncio em prol dessa criatura maravilhosa que foi esse gato. (Fazem o sinal da cruz, fazem uma oração e cantam uma música em homenagem ao gato. Jéssica Carla, então, joga as flores sobre o corpo morto do gato e o bicho ressuscita. Gritaria e confusão. Jéssica Carla aparece fora da casa toda arranhada.) Socorro! Telespectador… É com você, Monalisa! (Sai toda dolorida e acabada.)

ÂNCORA: Aqui no Impro Jornal é assim, notícia de relevância com a qualidade que você merece. Impro Jornal, a notícia parece ficção, mas é tudo real. Boa tarde!





Você pode conferir o vídeo neste link: https://www.youtube.com/watch?v=ei7Gbu9HYWk


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