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"O Tempo Em Grãos de Açúcar" - Improviso Em Fatos Reais

  • Foto do escritor: Pinoia
    Pinoia
  • 18 de ago. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 22 de mai. de 2022

O terceiro texto desta série de três é da atriz colaboradora Ana Acácia Schwartz. Sua inspiração veio através de um único relato que por si só já é uma crônica com fatos e acontecimentos condensados.


História de Pandemia:

Eu trabalhava em uma certa empresa de Blumenau, em um determinado período no finalzinho da manhã até o finalzinho da tarde. Eu ia todos os dias não me atrasava, o máximo de atraso era 3 ou 4 minutos

Em um dia lindo azul sem nuvens, sol belíssimo, acordei bem desesperado

Olhei o celular, sem bateria, pensei ai que merda, fui correndo, procurei o carregador. Ufa achei! Que bom, deu um alívio, porque achar algo rápido quando precisamos é uma dificuldade que tenho - os serezinhos vivem escondendo coisas de mim- coloquei na tomada, corri para o banho. Ao desligar o chuveiro olhei

- Ai! não acredito. Esqueci a bendita toalha, fui para o quarto molhado, molhei a casa toda, mas encontrei a toalha, escorreguei mas não cai, peguei uma toalha do armário, pronto, outra etapa.

Depois, peguei a calça jeans, campainha toca

- Aí senhor, bem nessa hora? tem que ser agora? pensei meio putiado, fui colocando a calça e caminhando meio pulandinho. Powww, cai de maduro, um pacote na poça d'água que eu mesmo fiz segundos atrás.

Atendi a porta, era só a vizinha com um potinho na mão querendo açúcar. Peguei um pacote fechado e ela arregalou o zoio dizendo

- Não precisa disso tudo. Eu respondi:

- Pega, pega tudo, outra hora tu me devolve, pode ficar tranquila. Ela agradeceu, e eu:

- hoooo que isso, quando precisar é só pedir. Ela sorriu com os olhos e disse tchau

- Tchau, tenha um ótimo dia! Fechei a porta e fui correndo. Fiz café e enquanto a água fervia olhei o celular e liguei. Deu quase um treco, 1h e 30min atrasado.

Ai que merda, depois disso, pensei ok, agora que já tô atrasado, meia hora a mais ou menos já não faz mais diferença, a briga será a mesma

Fiz café, só tomei café, escovei o dente, e sai. Peguei a bike e fui no galeto, num carrerão que só. Nem eu sabia que podia ir tão rápido de bike. Embora eu tivesse que recuperar os minutos de café e dentes escovados

Quando cheguei no trabalho, olhei assim, o segurança estava lá, ele olhou falou:

- tu aqui hoje?

Ai eu disse:

- Sim, sim

Ele:

- Mas no domingo!

Aí eu falei na minha mente - Não acredito! e ri tão alto na minha cabeça que eu mesmo queria ver a cara que fiz.

Eu meio que disfarcei, falei é eu estava dando um rolê de bike, ele ofereceu um café da térmica, tomei. Depois fui falando:

- a valeu muito obrigado, vou continuar meu rolê de bike. Sai e fui em direção de casa

Cheguei em casa da do rizada de tudo que tinha acontecido

Até que na ida de bike, eu percebi algo estava estranho, quase nenhum carro na rua, uma ou duas pessoas andando, um casal com um filho. Não parecia, era domingo e eu trabalhava de segunda a sexta feira.

Aprendi várias coisas só nesse dia.

Causo verdadeiro vivido por mim.

Pelo menos a camisa não estava do avesso.



O Tempo em Grãos de Açúcar:

Foi um longo dia. O Carlos disse

Foi? Nem sei. Dormi o dia todo, a janela tava fechada e se por acaso eu tenha acordado pra me virar ou mesmo pra ir fazer xixi, nem vi. A cortina tava fechada e nem vi se tinha luz, chuva, sol. Pausa (ri) lembrei do tempo que a gente trabalhava no shopping lembra. Agente fazia aposta.

- simsimsimsism. Se o próximo cliente que entrar tiver usando alguma coisa na roupa azul, é pq tem sol. Se tiver de chinelo ou de casaco ou com alguma peça roxa ta chovendo.

- e se tiver (os dois juntos) de chinelo casaco alguma coisa azul e roxa o mundo ta dominado por dinosssauros e o melhor a fazer é ficar aqui. Se trancar.

- Primeiro correr nas americanas comprar ou pegar tudo que tiver de comida e se trancar aqui.

Daí ia ser igual aqueles filmes adolescentes que alguém passa a noite trancado naquelas lojas de varejo que fala ne. Que tem de tudo um pouco se bem que depois da pandemia ate a Americana tem de tudo um pouco ta igual a milium hehehehehe tão vendendo até atum em lata sabia (ri)

- É foi um longo dia disse o Carlos.

(Silencio) (olhar disperso pra uma diagonal pra cima)

- Eu acho que eu vou sair ( falando como se pra si )

É sei lá, não sei as vezes não te, da de vontade de ser... ou as vezes tu não sonhas que tu eis um pássaro por exemplo ou um dinossauro daqueles grandes tipo pernudo que passam por cima de tudo. Não sei, as vezes eu queria sonhar ou pensar essas coisas, mas não. Não consigo


Acho que ontem eu sonhei que era um segurança. Um homem, eu era homem, um segurança de filme não, não. Um segurança de supermercado, meia idade, terno, sei lá tipo assim, um segurança homem. Pelo menos eu sabia, sabe quando você se vê de fora no sonho, mas mais que isso, eu sabia. Eu era homem e meu nome Paulo. (ri) ´é verdade era Paulo. Agora falando em voz alta eu lembrei.


As vezes não acontece isso contigo de tu ficares assim encucada com, com algo? Algum assunto, alguma coisa parece difícil. É difícil. Aí tu vais tentar contar tuas lamúrias, dizer toda a merda que ta te acontecendo e ... plim. Assim que tu falas... plimm, nãm é nada demais? Não é que não é nada demais mais parece que quando fala já vem junto a solução sabe.

Imagina assim: tu estas numa torre, uma torre alta tipo as pernas do dinossauro, alta como aquelas escadas que giram. A cada andar tem uma porta e cada porta está trancada. Tais carregando um molho de chave com, sei lá, 100 chaves? Tens que descobrir qual é a de cada porta. Aí tu tenta, tenta, as vezes da sorte, outras vezes tu fica ali dia noite, dia, noite, dia tudo. E de repente quando tu chegou lá em cima e grita - ( cheguei ) sai da tua língua uma chave. Outra, nova, diferente, assim... pluf no chão. E tu vê e era a chave que abria tudo e, tava ali, ali o tempo todo. Mas as vezes não basta estar ali né . Tem que gritar. Gritar tem que gritarrrr Cheguei!! Chegue!!! To aqui!!!


Eu era o Paulo.


Eu não consigo sorrir.

Quando eu tento a campainha toca. Eu saio correndo e tem sempre uma senhora que fica me pedindo açúcar.


- Tem açúcar? Ela pergunta. Eu tento sorrir. Sorrir pra ela como quem diz: bom dia dona Alda tudo bem? Bolinho de novo. O cheiro sempre é ótimo. Me lembra o café que eu tomava com o seu Paulo


- Seu Paulo?


Ahh verdade o seu Paulo era o segurança do shopping. hã que coisa heium.

Mas não, a boca não abre. A boca até abre mais não mostro os dentes. Sera que dinossauro tem dente? Mas por dentro eu to rindo. Sera que por fora da de ver? Sera que ela sente a minha vibração de sorriso. Porque sabe, é diferente sorrir e rir.

Podia gritar e cair a chave que mostra os dentes. Os meus.


Eu acho que vou sair. Vou preparar uma bela garrafa de café. Isso. Vou ferver minha agua, colocar uma quantidade nada exata de pó de café no coador e passar um cafezinho. Botar na minha térmica meia suja de café velho e sair. Vou sentar numa praça, numa calçada tranquila. E tomar meu cafezinho.


Link para o vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=0BSnn2mwtrE



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